Descobrindo o Amazonas

O El Dorado é aqui

São Gabriel da Cachoeira

São Gabriel da Cachoeira é um município único no Amazonas e, ouso dizer, no Brasil. E não digo isso apenas pelo seu isolamento geográfico nem por suas paisagens deslumbrantes, mas principalmente por sua população. Cerca de 90% dos habitantes de São Gabriel são indígenas, o que confere a ela o título de cidade mais indígena do Brasil. As mais de 20 etnias diferentes que vivem no município exercem uma influência tão forte que, além do português, existem mais três idiomas oficiais: nheengatu, tukano e baniwa. Apesar de falarem português, a maior parte dos habitantes conversa nas suas línguas nativas, o que pode ser comprovado facilmente ao andar pelas ruas da cidade.

Lugar de contemplação

Com suas praias de areia branca rodeadas por serras e morros, São Gabriel pode quase ser considerada o "Rio de Janeiro Amazônico". E há vários locais onde é possível comprovar tal beleza.

Entre setembro e janeiro, por exemplo, uma extensa faixa de areia branca, que pode atingir até 500 metros, surge bem em frente à cidade e torna-se  o lugar perfeito para relaxar e banhar-se nas águas do Rio Negro, ou então para jogar bola em uma das várias quadras de futebol e vôlei improvisadas na areia. Curiosamente esta praia não possui um nome definido, sendo algumas vezes chamada simplesmente de prainha. Mas isso pouco importa, já que ela também é o ponto ideal para contemplar a Serra do Curicuriari, que por lembrar a forma de uma mulher deitada ficou conhecida como Serra da Bela Adormecida. A visão dessa imensa formação rochosa, que por vezes fica parcialmente coberta pela neblina, é de tirar o fôlego, especialmente durante o nascer do sol.

Partindo da praia é possível chegar em duas pequenas ilhas localizadas em frente à cidade: a Ilha do Sol e a Ilha da Brigada (também conhecida como Ilha da Juíza), as quais também revelam belíssimas praias durante a vazante do rio. Na Ilha do Sol, um simples e charmoso restaurante em formato de palhoça se revela uma excelente opção gastronômica, onde é possível saborear um delicioso peixe frito bem às margens do Rio Negro.

Aliás, por falar no Rio Negro, aqui em São Gabriel ele é bem diferente daquele visto em Manaus. Nessa parte da Amazônia, com a aproximação do Planalto das Guianas, o rio se estreita e diversas rochas surgem em seu leito. Assim, as águas calmas que vimos na capital se transformam em perigosas corredeiras. Essa combinação de areia branca, enormes rochas e águas violentas tornam as praias de São Gabriel únicas na Amazônia.

Para admirar todas essas belezas do alto, a melhor opção é ir ao topo do Morro da Boa Esperança, localizado no centro da cidade. Durante a subida, que leva em torno de 30 minutos, há diversos painéis de azulejos representando a Via Crúcis de Jesus Cristo, culminando num pequeno altar. Lá em cima, embora a vista fique parcialmente coberta pela vegetação, é possível admirar São Gabriel e a imensidão verde da floresta que a cerca, entrecortada por serras e emolderada pelo gigante Rio Negro.

Ao final do dia, nada melhor do que ir até as ruínas do antigo Forte de São Gabriel, localizadas no pequeno Morro da Fortaleza. Do forte construído no século XVIII restam apenas as trincheiras e os alicerces, mas é no alto de uma caixa d'água erguida no local que temos a melhor vista do entardecer na cidade, com o sol tranquilamente desaparecendo por trás da Serra do Cabari, outra bela e imponente formação rochosa.

Lugar de aventura

Para os aventureiros de plantão, vale lembrar que São Gabriel é o local de partida para quem deseja chegar ao ponto mais alto do Brasil: o Pico da Neblina. A viagem, entretanto, é bastante longa e complicada, levando vários dias de carro, de barco e finalmente de caminhada até atingir o topo. Além disso, o Parque Nacional do Pico da Neblina encontra-se sobreposto à reserva indígena dos Yanomami, sendo necessária uma permissão dos índios para entrar. Na cidade, é possível obter informações sobre como fazer essa excursão.

Mas São Gabriel também conta com outros roteiros para aqueles que buscam adrenalina. Ainda no quesito escaladas,  o visitante pode escolher entre subir até o topo da Bela Adormecida ou escalar a menos conhecida Serra da Ariranha, ambas localizadas às margens do Rio Negro. Se preferir, pode ainda ir até o distrito de Cucuí, seguindo literalmente até o fim (ou melhor, o início) do Rio Negro  em terras brasileiras. Aqui está localizada a espantosa Pedra de Cucuí, um monte rochoso com 462 metros de altura cujo formato lembra o rosto de uma mulher e de onde é possível avistar, longe no horizonte, o Pico da Neblina.

Um outro acidente geográfico bastante peculiar em São Gabriel é o Morro dos Seis Lagos. Localizado 70 km ao norte da sede do município, esta reserva biológica chama a atenção por abrigar meia dúzia de lagos que possuem cada um uma coloração diferente, fenômeno resultante da grande quantidade de minérios que existe em seu subsolo (mais sobre isso adiante). Dentre eles, o mais impressionante é sem dúvida o Lago Verde, que além da belíssima cor ainda oferece uma ótima visão panorâmica do seu entorno. O Lago do Dragão, com suas águas escuras e margens rochosas de cor avermelhada, e o Terceiro Lago, cujas águas possuem um tom castanho-dourado, também merecem destaque.

Visitar algumas comunidades indígenas é outra atividade que pode se transformar numa verdadeira aventura, considerando as dificuldades de acesso a esses locais. Navegando pelo Rio Uaupés, um dos últimos (ou primeiros) afluentes do Rio Negro, chegamos depois de algumas horas nas comunidades de Taracuá e Iauaretê. Seguindo por outro afluente, o Rio Içana, o destaque fica por conta das suas grandes e traiçoeiras corredeiras, as quais se vencidas revelam Tunuí, um simpático povoado localizado aos pés de uma pequena serra. Por fim, podemos visitar ainda a comunidade de Maturacá. Localizada dentro dos limites do Parque Nacional do Pico da Neblina, esta pequena vila impressiona os visitantes com a imponente visão das Serras do Padre e do Paruri, prolongamentos da mesma cordilheira que, alguns quilômetros à frente, forma o ponto mais alto do país.

É importante ressaltar, no entanto, que a maioria dessas comunidades e acidentes geográficos, da mesma forma que o próprio Pico da Neblina, estão localizados dentro de reservas indígenas. Para conseguir entrar é imprescindível obter uma autorização da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), localizada na sede do município.

Lugar de diversidade e mistérios

Depois da esmagadora maioria indígena, as duas populações mais significativas são os missionários religiosos e os militares. Os primeiros foram os responsáveis pela fundação do povoado que deu origem ao município, lá pelos idos do século XVII. Até hoje ainda há muitos frades e freiras que realizam trabalhos sociais tanto na zona urbana como também em diversas comunidades indígenas floresta adentro.

Já a presença dos militares explica-se pelo fato de que o município faz fronteira com a Colômbia e a Venezuela. Esta é a famosa região do mapa do Brasil conhecida como Cabeça do Cachorro, devido ao seu formato. Declarada área de Segurança Nacional, São Gabriel conta com o patrulhamento constante das suas fronteiras para combater o narcotráfico.

Além da controle das fronteiras, a presença do exército se faz necessária também pela proteção da própria floresta. Nessa região da Amazônia, o solo é extremamente rico em minérios, especialmente em nióbio,  um mineral ultra resistente que é utilizado na confecção de ligas essenciais para as indústrias aeronáutica, espacial, nuclear e bélica. A maior reserva mundial de nióbio encontra-se justamente aqui, no Morro dos Seis Lagos. Sua extração, porém, é proibida, pois se encontra em área de proteção ambiental e indígena. No entanto, existem diversos boatos, verdadeiras teorias conspiratórias, sobre a exploração desse minério em terras amazônicas.

Todo esse caldeirão étnico, aliado ao isolamento geográfico e às riquezas minerais inexploradas, além das belíssimas paisagens de uma Amazônia totalmente preservada, conferem a São Gabriel da Cachoeira uma aura verdadeiramente mística.

Resumindo...

Distância de Manaus: 852 km em linha reta, e 1.001 km por via fluvial.

Como chegar (duração / custo de ida):

  • Barco regional (4 dias / 220 reais)
  • Lancha rápida (24 horas / 300 reais)
  • Avião (2:30h / 400 reais)

Não deixe de ver/fazer:

  • Visitar as diversas praias da região, principalmente a "prainha";
  • Admirar a Serra da Bela Adormecida durante o nascer do sol;
  • Almoçar no restaurante da Ilha do Sol;
  • Visitar a Ilha da Brigada;
  • Visitar a Praia do Akidaban;
  • Passear de voadeira pelo Rio Negro, admirando as várias serras da região;
  • Subir o Morro da Boa Esperança;
  • Ver o pôr-do-sol no Morro da Fortaleza, admirando a Serra do Cabari;
  • Visitar o Morro dos Seis Lagos;
  • Escalar a Serra da Ariranha;
  • Escalar a Pedra de Cucuí;
  • Visitar as comunidades de Taracuá e Iauaretê, no Rio Uaupés;
  • Enfrentar as belas corredeiras do Rio Içana, para chegar na vila de Tunuí;
  • Admirar as imponentes Serras do Padre e do Paruri, na vila de Maturacá; 
  • Visitar o Parque Nacional do Pico da Neblina e atingir o "teto" do Brasil.

- As praias do município surgem apenas entre setembro e janeiro.

- A excursão ao Pico da Neblina leva geralmente oito dias (incluindo ida e volta) e exige bom preparo físico.

- Praticamente todas as comunidades indígenas, além de vários acidentes geográficos como o Pico da Neblina e o Morro dos Seis Lagos, estão localizadas dentro de reservas cujo acesso é restrito, sendo necessário obter uma autorização de entrada da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), a qual mantém sua sede em São Gabriel. Desobedecer esta instrução pode transformar a visita numa tragédia.

- Mesmo com seu grande potencial turístico, São Gabriel da Cachoeira ainda continua sendo ignorada pelas políticas públicas do setor. Na há sequer um Centro de Atendimento ao Turista (CAT) na cidade. Apesar das belezas naturais, a infra-estrutura da cidade é bastante precária.

- Para quem deseja chegar a São Gabriel pelo rio, há duas opções: barcos regionais (conhecidos como recreios) e lanchas rápidas (chamadas de ajatos).

- Os barcos regionais, apesar de serem "mais baratos", demoram bem mais a chegar. Além disso, infelizmente, as condições de higiene, conforto e segurança desse tipo de embarcação são extremamente precárias. No entanto, para aqueles que não têm pressa e conseguem relevar a precariedade da situação, a viagem pode ser uma experiência inesquecível.

- As lanchas rápidas representam a melhor forma de viajar pelos rios do Amazonas. Reduzem o tempo de viagem em até quatro vezes e são muito mais confortáveis. Os preços, no entanto, equivalem ao dobro dos barcos regionais.

- O site Viagens & Negócios oferece uma ótima ferramenta de busca que mostra os horários e contatos dos barcos e lanchas que fazem viagens intermunicipais pelo Amazonas. 

- Já o transporte aéreo no interior do Amazonas é dominado por apenas uma companhia, a Trip Linhas Aéreas. A falta de concorrência leva os preços praticados a serem superiores aos de uma passagem área para fora do estado (!!!), mesmo com as distâncias sendo menores.

- Além dos altos preços, os dias de saída de embarcações e aviões de Manaus para o interior são bastante limitados, tornando a viagem entre os municípios do estado um grande desafio. 

Para ver fotos de São Gabriel da Cachoeira, clique aqui.

Contatos

Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro - FOIRN

  • Telefones: (97) 3471-1632 / 3671-1001
  • Email: foirn@foirn.org.br

Pousadas em São Gabriel da Cachoeira

 
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